CINQUENTA TONS DE CINZA: RELACIONAMENTO ABUSIVO?

 A análise se restringe somente ao cenário cinematográfico, visto que os livros são mais ricos em detalhes. Por isso, preciso exaltar a necessidade dessa distinção. 

CONTÉM SPOILERS!


CINQUENTA TONS DE CINZA




O termo sadomasoquismo, à princípio, desperta certa estranheza aos olhos de quem vê, lê e exerce pela primeira vez de tal prática sexual, uma vez que os relacionamentos considerados "tradicionais" (retrógados) não reproduzem a experiência ou reprimem uma vontade em eminência. 

Acontece que a trilogia de Cinquenta Tons de Cinza apareceu nos cinemas abrindo portas para o conhecimento sobre algo que pode ser sim prazeroso para uns, porém, outras portas perigosas também foram abertas. 

O primeiro cenário da produção cinematográfica focaliza nos detalhes (pontos chaves para acontecimentos futuros) da protagonista, Anastasia Steele, de 21 anos, enquanto esta se arruma docemente para entrevistar o CEO de 27 anos e também protagonista, o Sr. Grey, no lugar da sua melhor amiga e colega de apartamento. 

O primeiro encontro que se segue dos dois resulta em uma inexplicável ardência por parte do bilionário, reprimida em toda a conversação entre os dois. Arrisco dizer que ele se impressionou por ela antes mesmo dela pensar no assunto. 

Então, posteriormente, eles se reencontram (não foi um acaso, Grey sabia onde ela trabalhava) e daí em diante tudo o que acontece é para apenas um propósito: Grey sugerir a relação contratual entre os dois. 

Sim, relação contratual. 




É nesse exato momento que fazemos um return ao passado, mais precisamente aos 5 anos de idade do protagonista e sua infância extremamente abusiva. 

Christian Grey era filho de uma prostituta e viciada em drogas, com um padrastro abusivo, sem contar que o homem era o cafetão de sua mãe. O homem maltratava tanto a mãe quanto maltratava o garoto. Isso ia da violência psicológica à fisica. Até que o garoto, em um péssimo dia, encontra sua mãe morta (sem saber que estava morta, até porque ele não sabia o que era isso) e apenas dias depois a policia encontra seu corpo no chão, ao lado do filho faminto.  

Grey foi então adotado por uma familia que o apresentou o significado de familia, amor e proteção. 

Porém, aos 16 anos, conhece o sadomasoquismo através de uma das amigas mais velhas da sua mãe adotiva. A mulher que o adotou não sabe disso até "hoje".

Sim, é um outro tipo de abuso. É pedofilia. 

E foi nesse meio, com essa nova perspectiva de relacionamento, que Christian Grey liberou uma face há muito tempo reprimida. 

Acredito eu (não sou nenhuma psicológa em formação ou já formada) que o perfil do personagem poderia ser um exemplo do livro Ao Encontro da Sombra (Connie Zweig). O protagonista reprimiu por tanto tempo as dores de sua infância que às projetou dentro do sadomasoquismo. 

O CEO redige um contrato com normas que satisfazem seu prazer através da dor, ao mesmo que utiliza disso como um mecanismo para bloquear qualquer afeto amoroso com as parceiras contratuais. Simultaneamente, ele garante que elas tenham uma boa vida (financeira também) durante os três meses (ou mais, caso queiram prolongar) em que estiverem ao lado dele. 

A quebra do contrato realmente gera uma multa. Uma multa sexual. Garantir que saibam que existe um valor a ser pago caso quebrem com alguma norma é uma forma de manter a parceira escolhida na reta. Principalmente se ultrapassar a barreira emocional. 

Nesse caso, dentro do enredo que abrange o Sr. Grey, enxergo o contrato como um símbolo de poder econômico e de gênero. 

É muito comum, por exemplo, "contratos verbais", onde em relacionamentos abertos há combinações, conversas, de como pode ser melhor um para o outro. 

Anteriormente à chegada da Sra. Steele, não existiam janelas para negociações. Com as outras parceiras era o que ele exigia e ponto final. Até que então, a paixão que arde no peito do empresário pela estudante de literatura, o coloca em uma posição de ceder para que a tenha por perto. 

Repito, nesse caso, Christian Grey e suas antigas parceiras, o contrato e suas exigências foram sim bastante problemáticas. Porque foram sempre à base da dominação de gênero. 

Tenho a perspectiva que o Christian Grey, bem como o Arthur Fleck em Joker (Coringa), são figuras de estudo, para a psicanálise, que refletem os traumas da infância e as consequências disso em suas construções como individuos. 

A problemática nisso tudo é como os telespectadores romantizam a trama sem questionar os motivos pelos quais o protagonista só possui relações assim, normalizando comportamentos que foram gerados a partir de uma infância e adolescência de abuso.  

Quando ele conhece e se apaixona perdidamente pela Anastasia, aos poucos ele desbloqueia caminhos que foram fechados durante 27 anos e recupera uma parte de si que ele nem sabia que ainda existia. 

O papel da Anastia no primeiro filme é bem como uma "Clinica de Reabilitação para Homens Quebrados", o que eu não concordo em partes porque ela quase que se torna uma quebrada também. Ao mesmo tempo, eu não acho correto deixar quem você ama na mão. 

Foi o primeiro homem da vida dela, então o amor que sentia por ele não a permitia se distanciar quando sentia que deveria. 

Mais à frente, ambos constroem uma familia. Acompanhar essa mudança da existência de um contrato até a sua inexistência e abertura pro amor, foi o que pra mim, no final, valeu muito a pena. 




Na visão cinematográfica eu gostaria que a Anastasia Steele sem um Christian Grey tivesse sido mais enaltecida. O que é confuso porque parece que ela realmente começa a viver quando conhece ele. Sua ousadia, sensualidade, beleza, paixão. Tudo aflora. 

Por fim, acaba que eles dois são como um recomeço um para o outro. Acompanhar essa evolução é realmente algo gratificante. 

Esse post na verdade seria um comparativo entre 50tons e o polêmico filme 365 Days. Mas acabei me empolgado demais, rs. 
Talvez no próximo post.
Até mais!

 



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